Carta dos atingidos pela Samarco pelo direito à saúde

Obtido em: http://tragedianunciada.mabnacional.org.br/2016/10/27/carta-dos-atingidos-pela-samarco-pelo-direito-a-saude/

atingidos saude

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Nós, moradores de Barra Longa, atingidos pela Samarco (Vale/BHP Billiton) e organizados no Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) viemos por meio desta Carta contar sobre a nossa situação de saúde.

         Um ano depois do crime, a lama que invadiu a nossa cidade na madrugada do dia 06 de novembro de 2015 continua presente em nossas vidas: na poeira que respiramos e que suja nossas casas; na falta dos espaços coletivos que foram destruídos (rio, campos de futebol, praça, pista de caminhada); no trânsito de caminhões, máquinas e ônibus que fazem barulho dia e noite e limitam a nossa circulação na cidade. A Samarco atua como se estivesse em uma mineradora. É importante dizer que ela não é e não será dona de Barra Longa.

         É obrigação da Samarco reconstruir o que ela devastou pelo maior crime ambiental da história da mineração. A empresa é a responsável pelo desastre. Porém, entendemos que seria possível reconstruir sem passar por essa quantidade de transtornos. Se a empresa dialogasse com os atingidos certamente faríamos um planejamento coletivo que considerasse a rotina e o bem estar dos moradores, mas, a Samarco, que ignorou a vida das populações abaixo do depósito de lixo de mineração, continua desrespeitando as pessoas.

         Temos passado dificuldades também no comércio, principalmente os menores, que tentam melhorar suas vendas e voltar a ter a receita de um ano atrás; na impossibilidade do profissional autônomo de retomar suas atividades (tais como limpadores de quintal, pedreiros, bombeiros, eletricista, etc.); na falta de expectativa do agricultor que perdeu seu sustento e não sabe o que será do solo consumido pela lama; na tristeza do idoso que sem as atividades dos quintais e nas ruas, não tem a garantia de ver o dia em que a vida retornará à rotina; na angústia daqueles que insistentemente procuram a empresa na esperança de ter respostas. Por todos esses motivos, entre muitos outros, tem sido difícil sair de casa, viver e conviver em Barra Longa.

          O desastre e todos os danos materiais, esse dia a dia caótico de um canteiro de obras e também o sentimento de injustiça e insegurança com as ações da empresa nos adoece. Poderíamos listar as doenças físicas e psicológicas que temos tido, mas estas não caberiam em uma Carta. Teríamos que escrever um livro para dar conta de tantos problemas de saúde.

         Todos nós temos sofrido com a tragédia, cada um de um jeito próprio, mas observamos entre os nossos familiares e vizinhos que alguns sofrem de maneira especial: as crianças, com os problemas respiratórios e de pele, contínuos e persistentes; os idososque se queixam do agravamento das doenças e da vida fechada dentro de casa por causa do canteiro de obras e da destruição dos espaços coletivos e dos quintais; as mulheres, que ficam responsáveis pela limpeza da sujeira interminável das casas e que também cuidam dos familiares que adoecem, fazendo aumentar o cansaço e doer o coração.

        Sabemos que alguns idosos mudaram da cidade, por “uma questão de sobrevivência”, dizem os familiares. Além disto, todos nós estamos gastando mais com produtos de limpeza e higiene pessoal e com as contas de água e energia que estão mais caras, sem falarmos nos tratamentos de saúde.

         A nossa experiência e a observação cotidiana nos diz que muito do nosso adoecimento hoje tem relação com a poeira e com o desastre. Perguntamos a Samarco e ao sistema de saúde local: conhecem as necessidades da população de Barra Longa em saúde, hoje? Muitos de nós temos buscado tratamento fora da cidade, no setor privado, e como as doenças são persistentes temos várias preocupações e dúvidas sobre como agir e o que fazer daqui pra frente.

         Para denunciar a situação e buscar alternativas no cuidado à saúde decidimos criar um Coletivo de Saúde organizado no MAB para trocar experiências, discutir, avaliar e propor formas de pautar a Samarco e o poder público para que garantam nosso direito à saúde.

         Reivindicamos que a Samarco pare de nos dar respostas evasivas diante da situação de saúde da população de Barra Longa. Precisamos de estudos independentes que indique o número de doentes, os tipos de doenças e que faça a comparação entre o tanto de doentes que temos agora e como era a nossa realidade antes do rompimento.

         Que estude melhor as consequências da exposição diária à poeira do rejeito e ao canteiro de obras. A Samarco colocou um aparelho medidor de poeira no centro de nossa cidade e que ela diz ser de última geração. Com base nele, ela diz que “tudo está dentro de parâmetros internacionais” e que “poeira grande não faz mal”, o que não corresponde à realidade vivida por nós. Como é possível então haver tantas pessoas doentes? É a pergunta que não quer calar.

          Para que haja um cuidado a saúde que responda às demandas da população, é necessário termos acesso a informações seguras e que estas sejam incorporadas ao planejamento do Sistema Único de Saúde (SUS), que deve ser feito com ampla participação dos atingidos. Queremos pesquisas e estudos confiáveis que nos ajudem a compor argumentos seguros para que haja um serviço de saúde que trate uma situação grave e que precisa de respostas imediatas, além de considerar as demandas de um planejamento em saúde de médio e longo prazo.

         Esta Carta é um esforço de fazer ecoar em todos os cantos o que nós estamos vivendo diariamente e que não ocupa espaço nos jornais. É uma forma de dialogar e pedir a todos, especialmente para os atingidos pela lama da Samarco, que se unam nesta esperança ativa que tem sua base na solidariedade, na dignidade e na organização para a luta por direitos. Voltamos a dizer: a Samarco não é dona da nossa cidade! E também não será da bacia do Rio Doce!

         Em nossa bandeira e em nosso coração está gravada a frase que para nós é mais doque palavras, é um registro histórico do que queremos para nossos pais, filhos, amigos e para toda a sociedade brasileira: “águas para a vida, não para a morte!”

5 de novembro de 2016 – 1 ano depois do rompimento da Barragem da Samarco (Vale/BHP)

Coletivo de Saúde do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Barra Longa

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