Sofrimento, responsabilização e desejo: uma análise dos processos decorrentes das mudanças de moradia no âmbito do Programa Vila Viva – Belo Horizonte
Em 2004, a Prefeitura de Belo Horizonte inicia o Programa Vila Viva, um conjunto de ações integradas com vistas à urbanização, desenvolvimento social e regularização fundiária de vilas e favelas. Atualmente, é o maior programa de urbanização de favelas em curso no país e opera numa lógica que reconhece a favela como ocupação consolidada. Ainda que pareça fora de propósito problematizar tal Programa, considerei pertinente colocar a seguinte questão: o que significa, especialmente para as pessoas do lugar, não mais erradicar a favela? Seguindo esse questionamento, esta pesquisa reflete sobre a forma como o Vila Viva está estruturado, bem como seus objetivos e sua lógica, revelando que ele está estreitamente relacionado aos mecanismos do biopoder, um poder que tem como objeto e objetivo a vida, que deve “fazer viver”. Para compreender como esses mecanismos de poder são concretizados no processo de implementação dessa política de “inclusão” na cidade e vivenciados pelas pessoas do lugar, realizei entrevistas com pessoas removidas de suas casas e reassentadas em apartamentos no âmbito do Vila Viva no Aglomerado da Serra. Os relatos dos moradores sobre esse processo são marcados tanto pelos sentimentos de sofrimento e saudade como por afirmações de que a mudança para o apartamento foi algo positivo, o que revela a ambiguidade que perpassa a forma como o Vila Viva é experienciado pelos moradores removidos. Mas, ao contrário do que eu esperava encontrar, o sofrimento e a saudade estavam relacionados menos à coerção direta do que à modulação dos desejos e da conduta dos moradores. Em outras palavras, a construção de um afinamento entre o governo do outro e o governo de si é que possibilitou a adesão dos moradores ao Programa, apesar do sofrimento e da saudade por terem deixado suas casas, seus vizinhos e seus modos de vida. Se, por um lado, ter o desejo e a subjetividade como centro desse governo do outro contribui para perpetuar o sofrimento e responsabiliza os moradores pela inadequação e pelos problemas nos apartamentos, por outro, isso significa que o governo de si não se ajusta perfeitamente ao governo do outro, como demonstram as práticas não esperadas e proibidas nos prédios.